sábado, 12 de outubro de 2013

Toda longa jornada começa com um passo

Fazer mestrado é um sonho antigo. Desde criança gosto de estudar, pesquisar, questionar. Era aquela aluna "chata" que discute com o professor porque não acha correto o que está sendo ensinado. Não era exatamente "brilhante", com insights e descobertas fascinantes: tirei notas altas no fundamental porque a escola não exigia muito além de boa memória - sou boa para decorar fatos, datas, nomes.

Já no ensino médio o desafio foi maior: fui pra um instituto federal, onde o nível de exigência era bem diferente. No primeiro ano tive a experiência de uma recuperação final em Física - eu, que mal havia tirado uma nota vermelha até então (ainda existe isso, nota vermelha??). Virei noites em claro fazendo trabalhos, debruçada sobre pilhas de livros, montei grupos de estudo, expandi os limites. Nos outros dois anos a realidade era a mesma, mas aí eu já estava acostumada.

Entre o ensino médio e a graduação, encaixei um curso técnico de Informática. De volta à estaca zero: estava numa turma que os alunos falavam de internet/intranet/extranet e eu mal sabia ligar e desligar um computador. O primeiro semestre foi particularmente difícil - lembro de ficar terrivelmente constrangida quando estava num trabalho em dupla com um "dos caras" e ele ficou impaciente com a minha lentidão pra digitar - mas fui em frente. Nos semestres seguintes, já estava programando e modelando entidades de maneira aceitável.

No começo da graduação em Sistemas de Informação, eu me senti mais tranquila - conhecia os professores, já me entendia com os algoritmos, não era um zero absoluto. O desafio veio no meio do curso, quando as circunstâncias em casa (família grande, pouco dinheiro, ser a filha mais velha) me levaram ao mercado de trabalho. Vi as notas despencarem, a qualidade dos trabalhos diminuir, as exigências aumentarem. Indo contra o conselho de um chefe, que me recomendava trancar o curso, fui até o fim, sem parar. Paguei o preço: não pude participar de projetos de pesquisa (que estavam engatinhando ainda), fazer iniciação científica (aberta quando eu já estava nos últimos períodos), escrever artigos - simplesmente não havia tempo. Largar o emprego para receber auxílio de pesquisa era impensável. Em compensação, o salário pagou meu computador, os livros, as viagens para os congressos acadêmicos.

E assim, terminei a graduação, sem a possibilidade de começar um mestrado. Como alternativa, decidi tirar um semestre de folga dos estudos para me dedicar a duas coisas: sair do sedentarismo e melhorar meu inglês. Foi o que fiz.

Terminada a folga, ainda sem possibilidades concretas de mestrado, fiz o que estava ao alcance: um curso de especialização. Eu queria algo específico da área de Computação, para ganhar experiência prática (sempre trabalhei em áreas correlatas, nunca no setor de TI mesmo) - um curso de Banco de Dados, por exemplo. Só que não havia oferta - entrei em Gerência de Projetos. Aprendi conceitos novos, conheci profissionais interessantes, mergulhei numa área com problemas bem diferentes daqueles com que eu costumava lidar.

Depois de um período conturbado na vida pessoal, em que minha realidade virou do avesso, decidi retomar os sonhos. E um deles é o mestrado.

Por que fazer mestrado?

Na minha atual situação, parece uma ideia estúpida - o plano A envolve pedir uma licença sem vencimento de 1 ano (sou funcionária pública), pagar todas as disciplinas nesse período, retornar ao trabalho e fazer a dissertação. O problema é que, além de ficar 12 meses sem qualquer salário (e nunca fiquei sem ele desde que comecei a trabalhar, aos 16), perderei a função gratificada que tenho, e meu contracheque será reduzido à metade, talvez menos.

Olhando por esse ângulo, realmente parece estupidez. Nem sonho em dizer o plano A aos conhecidos que trabalham como loucos para ganhar salario mínimo. Pareceria pretensão, arrogância ou insensatez - "Como assim?? Você é louca?? Tanta gente querendo a sua vida!!!".

Mas o que me move é simplesmente o sonho. Aquela curiosidade que me acompanha desde que botei os pés nesta terra. Aquela vontade de mudar nem que seja um pedacinho do mundo, trazer algum começo de resposta para a infinidade de questões que existem.

Claro, ver a ciência como a resposta a estes meus anseios talvez seja fruto de uma visão poética e romantizada (ou não). Se a ciência é a única resposta, ou a melhor, ou se é uma resposta, não sei (ainda). Sei que um mestrado não muda o mundo, há pencas de mestres sem contribuições significativas, incontáveis pesquisas inúteis, dinheiro público e privado desperdiçado.

Mas para mim, o relevante agora é viver a jornada de conseguir chegar ao mestrado, saboreando dia após dia. Chegar lá vai exigir coragem, disciplina, foco, persistência. Não sou uma estudante sustentada pelos pais, que vai passar 2 anos recebendo uma bolsa de auxílio. Tampouco sou uma pesquisadora iniciante brilhante, com artigo publicado em periódicos Qualis A1. Sou uma profissional, razoavelmente estabelecida (para os padrões Nordeste), afastada do meio acadêmico, que vai largar tudo para recomeçar do zero.

Meu sentimento é como o daquele megaexecutivo que larga a multinacional e vai pra Ásia ser monge. Daquele assessor legislativo que trocou seu salário de 5 dígitos para ser professor universitário. Daquela mãe que passou a trabalhar em homeoffice para estar mais perto dos filhos. Daquela senhora que decidiu aprender capoeira depois dos 50 anos. Daquele jovem que...(são tantos exemplos)

Por isso comecei este blog - para não perder nenhum detalhe importante da aventura. E para depois, poder olhar para trás e dizer se valeu a pena (ou não!..rss..)

O prazo? Pretendo me candidatar (e passar!) em setembro/2014 (deadline para as exigências acadêmicas), com aulas iniciando em março/2015 (deadline para as exigências financeiras).

Que comecem os jogos!

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Update 1: Depois de saber que normalmente há bolsas disponíveis, é altamente provável que eu fique fora por 2 anos. E aí, quem sabe, vou poder seguir o conselho de Erik para Raven: não dividir sua força - concentrá-la em um único ponto.
Para quem não viu, é do X-Men First Class: Raven (Mística) está treinando com halteres, com aparência disfarçada. Erik (Magneto) subitamente joga os halteres sobre ela, e para conseguir segurá-los, ela tem que voltar à aparência original (azul). Ficou a lição: enquanto gastasse energia para se disfarçar, não a utilizaria completamente nas batalhas. Assiste aqui, entre 0:27 e 0:50. E desconsidera a música romântica...

12 comentários:

  1. Olá! Também moro em Maceió e gostei muito do blog, principalmente dessa apresentação, pois me identifiquei com as dificuldades durante a graduação; Passei em um concurso público de nível médio (onde trabalho até hoje) e não tive como participar dos programas de pesquisa e extensão da Universidade, o que me deixou "frustado", mas foi necessário pois precisava trabalhar!
    Conclui uma especialização em Gestão Saúde Pública também na UFAL e estou cursando Administração Pública na UNEAL e outra especialização, em Recursos Humanos.
    Sempre quis mestrado, por gostar de pesquisar e estudar e soube que esse ano abre o edital para um em Administração Pública. Tenho que fazer o ANPAD, apesar de ter muita dificuldade com números (na verdade é porque detesto) tô começando a me preparar e espero conseguir!
    Obrigado pelas dicas, estão sendo de grande ajuda. Boa sorte pra nós!!
    Abraço!
    Dartagnan Macêdo

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    1. Oi, Dartagnan!
      Bom, para começar, desculpa a demora em responder teu comentário: gosto de dar retorno logo, mas os deadlines de artigos agora estão consumindo todo o meu juízo..rss...
      Fiz o teste ANPAD aí na UFAL, e os comentários na sala eram todos sobre este mestrado em Administração Pública. Inclusive a UFAL abriu um curso preparatório exclusivo para os servidores: a intenção é que haja reserva de vagas para eles.
      Quando o pessoal perguntou sobre previsões para lançamento do edital, ninguém da coordenação do curso quis dar respostas claras. Mas como o curso já aparece até na lista de instituições para envio do resultado, no site da ANPAD, acho que é coisa certa mesmo.

      Boa sorte na preparação!!
      Se eu puder ajudar em mais alguma coisa, é só falar!
      Abraços!!

      Ah, você vai conciliar o trabalho e o curso?

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    2. Pretendo, mas não sei se será possível. rsrsrs

      Obrigado!!

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  2. Olá Rosa!
    Gostaria que soubesse o quanto fiquei feliz por ter encontrado seu "diário" virtual, no qual você expõe com tanta precisão e paixão o passo-a-passo para alcançar seu sonho.
    Há alguns meses, este também tem sido um tema no qual tem me deixado inquieta e a cada dia que passa tenho mais certeza de que quero alcança-lo também.
    E foi aí, em meio a tantas pesquisas pela internet, que me deparei com seu cantinho (que sorte a minha! rs).
    Já dei meu primeiro passo e me inscrevi no processo seletivo para ser aluna especial do mestrado do NPGA (Núcleo de Pós-Graduação em Administração) da UFBA. O resultado dos selecionados será divulgado no dia 10/08/15 e os dedos já estão cruzados! Rs
    Paralelo a isso e independente do resultado, me matriculei também num curso intensivo de inglês para ir me preparando para ANPAD, já que esta prova tem o 2º maior peso (2,5) e estou bem fraquinha nesta língua que será mais do que importante nessa jornada. Já fiz inglês quando era adolescente, mas não lembro mais de quase nada, então, vamos correr atrás do prejuízo.
    E agora, é rumo ao objetivo: Ser uma (excelente) aluna especial, me esforçar no inglês, me preparar para o ANPAD, escrever e publicar artigos, encontrar um tema para meu anteprojeto quando eu for me inscrever para o processo seletivo do mestrado e trabalhar! Sim, ainda irei trabalhar, não sei até quando e não sei se posso me dar ao luxo de abandonar meu emprego privado, mas, enquanto eu tiver forças, trabalharei e estudarei. Estou determinada, mesmo que o processo seja um pouco mais longo.
    Enquanto isso, tenho certeza de que recorrerei ao seu cantinho sempre que precisar de ajuda ou quando estiver com dúvida de alguma etapa na qual já tenha passado.
    Fiz questão de escrever no seu primeiro post porque depois de ler quase metade do seu blog, resolvi começar do início, já que estou neste processo também. Rs
    Obrigada por compartilhar sua experiência.
    Grande abraço!
    Tamires.

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    1. Oi Tamires,
      Conseguiu? To na mesma luta que vc!! Também quero UFBA, mas contabeis.

      Me informe se conseguiu.

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    2. Olá, Tamires!

      Antes de mais nada: PARABÉEEEEEEEEEEEEEENS!!!! =D
      Acabei de ver o resultado da seleção de aluno especial: começou bem, moça!!!
      Agora é como você mesma disse: ser uma ótima aluna especial, melhor o inglês, publicar...a caminhada é longa, mas é uma delícia =)

      É engraçado como a gente pode passar a vida toda sem pensar numa ideia. Mas quando ela finalmente vem à tona, é impossível não ficar "inquieta"..rss..
      Espero que seu plano corra muito bem!

      E qualquer coisa, apareça por aqui! Porque dias ruins sempre vão existir (eu que o diga), mas no balanço, é positivo =D

      Um grande abraço!

      Rosa

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    3. Leila,

      Espero que você logo logo vire colega de universidade da Tamires =)

      Abraços!

      Rosa

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    4. Olá Meninas!
      Então... consegui mesmo uma vaga como aluna especial e estou feliz da vida!
      E obrigada Rosa!
      Vou me dedicar ao máximo para participar da seleção que ocorrerá em meados de 2016!
      Como disse, impossível ficar inquieta! rs
      Boa sorte também Leila!!! Espero poder conhecê-la na UFBA, com fé em Deus!
      Abraços meninas!

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  3. Tamires, PARABÉNS!!!! Não é fácil, a Ufba é uma ótima Universidade.
    Vamos nos sim nos conhecer, se Deus quiser!

    Estou unindo forças para o ANPAD. Se quiser, podemos trocar dicas.

    Abraços!!

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    1. Dedos cruzados pelo sucesso da parceria =D

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  4. Rosa,

    adoro as suas postagens. Você nos motiva e encanta com as suas palavras.
    Seus posts são muito bem feitos.

    Abraços!

    =)

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    1. Obrigada, Leila!

      Ter esse retorno também me dá uma motivação que vocês nem imaginam...rsss...

      Boa semana!

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