segunda-feira, 27 de abril de 2020

Sobre desfechos acadêmicos (ou como passei de doutoranda para ex-doutoranda)


Se prepara que vem textão.


Para quem está chegando aqui agora, este blog nasceu em 2013. Na época eu estava começando a me preparar para a seleção do mestrado em Administração (UFPE). Depois de fazer o teste ANPAD e conseguir uma nota boa, eu decidi escrever sobre a preparação que fiz.

Compartilhei os posts num grupo de que participava no Facebook, o Instituto Integral. E aí a minha história começou a mudar. Conheci gente que é amiga até hoje, conheci uma professora que me orientou durante toda a seleção e a quem tenho eterna gratidão, troquei ideias com pessoas de todo o país. Tive a felicidade e a honra de ver gente brilhante me agradecendo por ter ajudado em sua trajetória até chegar à academia. Gente, EU é que agradeço por tudo de bom que veio para minha vida depois destes textos!

Este blog conta com mais de 100.000 visualizações. É altamente provável que nada do que eu escreva ou produza na vida acadêmica vá ser tão visto assim. Fico feliz que posts escritos numa manhã ensolarada de domingo tenham sido úteis para tantas pessoas.

Depois de ter conseguido entrar no mestrado, fiquei bem menos assídua no blog. Como expliquei aqui, ninguém faz "só" mestrado.

Em 2016 eu decidi emendar o doutorado. Fiz isto porque estava apaixonadíssima pela vida acadêmica e queria seguir sem parar?
Não.
Fiz isso porque era o caminho menos incerto entre aqueles que se apresentavam para mim. Enquanto fazia o pré-projeto de tese para a seleção, me frustrava pela dificuldade em produzi-lo. Eu me questionava - "se não consigo ter ideia de tese, o que raios irei fazer num doutorado?!". Mas fiz a seleção, passei.

Nos meses que se seguiram descobri a sociologia organizacional (e me apaixonei). Lembrei a jovem de 19 anos que eu fui e que sonhava em fazer Ciência Sociais na USP como segunda graduação. Entendi o papel da teoria na ciência social. Virei bolsista num projeto de pesquisa em parceria com o mercado e pude conhecer o que é viver entre mundos. Virei professora e vivi um pouco da dor e da delícia que é desejar contribuir para a formação dos estudantes. Tive (várias) crises de choro, motivadas principalmente pela frustração em ser tão pouco em comparação ao que eu deveria ser, ao que eu gostaria de ser. Enxerguei a nossa posição de subalternos acadêmicos, enquanto nordestinos, enquanto brasileiros, enquanto sul-americanos. Vislumbrei como seria o futuro que me esperava e o quão distante ele era do que eu almejava. Não vi mais sentido em continuar.

Na minha cabeça havia várias questões que eu não conseguia responder: "por que você está fazendo este doutorado? Qual será a relevância disto? Para quem você está trabalhando, a quem está servindo, ao quê está se submetendo - e para quê? Onde você vai chegar com isto? Que futuro te espera?".

No fim das contas, o sentimento era o mesmo que tinha na época da graduação - um conflito entre o que eu estudava e as questões que mexiam comigo. Já em 2005 escrevia sobre este conflito:
"Sou alguém que gosta de pessoas. Que precisa de desafios intelectuais, que gosta de se sentir inteligente também. Mas que é capaz de ficar horas em profunda tristeza por ver uma criança com uma roupa esfarrapada trabalhando, enquanto adultos em jaquetas jeans tiritam de frio. Fica triste por não ajudar. Por ver passar por seus olhos tantas teorias, princípios e preceitos. Por não ver como estes princípios ajudam pessoas. Pessoas MESMO. Não apenas funcionários e clientes de uma organização. Não a diretoria de uma empresa. Não você mesmo. Mas alguém que precisa de conhecimento e amor mais do que você de dinheiro."
Eu não conseguia ver como trazer estas questões para o doutorado que estava em curso.

Além disso, havia a questão da saúde mental. Só meses depois é que pude me dar conta do quão mal tinha estado. Explico: fui uma criança ansiosa. Levou tempo até perceber que aquilo que eu entendia como "meu jeito", de fato não era. O mesmo valendo para depressão. Ambas as condições foram intensificadas pela forma como levei a vida acadêmica.

Para utilizar uma metáfora, minha forma de levar os estudos até então poderia ser comparada com um corrida de 100 metros rasos. Há treinamento, há esforço e então há aqueles 10 segundos em que você vai aos seus limites (e além). Depois, há descanso...e tempos depois mais uma nova rodada de grande esforço. Para o ANPAD, por exemplo, fiz uma preparação intensiva de pouco mais de 3 meses.

A questão é que o mestrado e, em especial, o doutorado, são uma maratona. E eu quis levá-los com a intensidade de quem corre um sprint de 100 metros. Eu queria dar o meu melhor. Só que o "melhor" que eu estava acostumada a dar era ir ao meu limite (e além). Tudo bem fazer isto durante algumas semanas, alguns meses. Mas fazer isto por anos cobra um preço.

Então, no início de 2019 eu vim a Portugal passar férias com meu então noivo (hoje marido). Tinha um objetivo: decidir os rumos para os próximos tempos. Pesados prós e contras, em fins de fevereiro/2019 decidi que o melhor era abandonar o doutorado. A pá de cal era o fato de que, dado o conceito do curso, eu teria que passar por um processo caro e sem garantias, se quisesse ter o diploma reconhecido na Europa.

Assim, passei de doutoranda a ex-doutoranda.

Dias depois de comunicar minha decisão ao meu orientador, lembro de dizer a uma amiga: "Os dias não doem mais". Aos poucos a sensação de estar me arrastando foi diminuindo. Ainda mantive a matrícula porque poderia mudar de ideia. Agora, oficializado o meu desligamento, sinto que foi o melhor. Pouco mais de 1 ano depois, eu começo a me sentir bem de novo.

Para quem está na vida acadêmica, este texto não é para dizer a você que desista. Eu jamais diria isso. Este foi o meu caminho até agora. Continuo apaixonada por aprender, investigar, compartilhar. Mas no meio do caminho eu não me conseguia me enxergar obtendo um doutorado onde estava, da forma como estava.

Não me arrependo de ter feito o mestrado - sou uma pessoa melhor por causa dele. Não me arrependo de ter começado o doutorado - trouxe oportunidades inestimáveis, estimulou reflexões e um nível de autoconhecimento que não teria de outra forma. Da mesma forma, não me arrependo de ter largado - o meu ser agradece.

Se eu fosse dar uma dica, a partir de toda essa história que contei, seria: não perca de vista sua estrela. Não perca de vista o seu propósito. Respeite os seus limites. Se você sempre foi uma pessoa esforçada em seus estudos, não ache que por estar no mestrado ou no doutorado você tem que fazer o triplo de sacrifício. Ao pensar desta forma, sendo alguém que já tem o hábito de se dedicar, é muito provável que você esgote todas as suas reservas de energia. Que deixe de dar atenção ao que você come. Que passe a dormir mal. Que negligencie as pessoas que você ama. Que se esqueça de quem você é e o que te trouxe até aqui.

Quando estamos esgotados, somos pessoas piores, temos ideias pobres, fazemos pesquisas medíocres. Não acho que isto seja bom para ninguém. Fica a dica.

Faz agora 9 meses que me afastei da academia (ainda dei aulas até agosto/2019). Nesse meio tempo, casei, mudei de país. Já vi séries, já li livros. Fiz umas aulas de desenho. Dancei horas na sala. Fiz terapia. Escrevi bastante. Comecei num novo emprego (saudades da proteção da bolha acadêmica). Ainda não sei o que farei nos próximos tempos. Mas se for relevante, volto aqui pra contar.

Tenho planos de fazer posts para ajudar professores iniciantes. Tenho muitos materiais das disciplinas que ministrei e não queria que eles ficassem esquecidos aqui no HD do notebook. É provável que nos próximos dias saiam mais textos. Mas sem pressão. Já deu de pressão.

sábado, 1 de julho de 2017

Sobre as incertezas da vida acadêmica

Os últimos meses não foram fáceis.

Estou trabalhando num projeto de pesquisa maravilhoso, mas que é bem diferente da minha área. As aulas do doutorado me fazem desejar ter três encarnações para conseguir estudar tudo o que quero/preciso. Meu relacionamento está no modo distância desde agosto do ano passado. Depois de 2 anos morando fora, sinto os vínculos com muita gente querida se afrouxando. E não sei o que vai acontecer daqui pra frente. A gente nunca sabe, é claro. Mas a vida acadêmica me parece um pouco mais incerta do que as outras.

Vive-se à espera de um edital. Que pode ser em qualquer lugar do país (do mundo?). Para trabalhar em qualquer lugar. Para qualquer sub-área. Um artigo que cai por acaso nas suas mãos pode mudar completamente sua visão de mundo, sua perspectiva de pesquisa. Um livro pode virar seus planos de vida de cabeça para baixo. Uma aula pode tirar toda a graça do tema que até então era a menina dos seus olhos.

Para quem lida com ansiedade desde que se entende como gente, como eu, isso é bastante assustador. Adoraríamos controlar, prever, saber. Mas não dá.

Comentei com algumas amigas há uns dias que às vezes eu me pergunto onde estava com a cabeça quando resolvi bagunçar a minha vida. Porque é essa a sensação que eu tenho: que tudo estava nos trilhos e aí eu decidi seguir por atalhos e mais atalhos, que me fizeram caminhar bastante e ver coisas lindas e diferentes, mas que também me tiraram todos os pontos de referência que eu já conhecia.

Para quem está na mesma situação, fica aí um lindo desenho by The Latest Kate.
Colando na parede em 3...2...



*Tradução: tudo é assustador e você se sente vulnerável, mas isso não significa que tudo vai dar errado. Sentimentos de ansiedade normalmente não são indicativos (confiáveis) da realidade.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Objetividade do cientista social e do cientista natural

Faz tempo que ouço pessoas da área de Exatas dizerem coisas como: "eu sou objetivo", "gosto de fazer pesquisa objetiva". A ideia subjacente é que quem faz pesquisa nas Ciências Sociais se baseia apenas em opiniões, percepções, visões pessoais, etc.

E aí, lendo esse trecho de Popper, em "A lógica das Ciências Sociais", p. 22, eu tenho vontade de sair cantando...

"É um erro admitir que a objetividade de uma ciência dependa da objetividade do cientista. E é um erro acreditar que a atitude do cientista natural é mais objetiva do que a do cientista social. O cientista natural é tão partidário quanto as outras pessoas, e a não ser que pertença aos poucos que estão, constantemente, produzindo novas ideias, ele está, infelizmente muito inclinado, em geral, a favorecer suas ideias preferidas de um modo parcial e unilateral. Vários dos físicos contemporâneos de maior projeção têm fundado, também, escolas que estabelecem uma resistência poderosa a novas ideias"



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Por uma ciência mais transparente

Pense bem.
Se você quer ser um grande pesquisador, que caminhos pode seguir? Como deve escolher seus temas, seus companheiros de pesquisa, seu métodos? Quais são os erros que você vai cometer, inevitavelmente? Quais serão as barreiras do processo científico?
Você sabe?
Eu também não.

E, infelizmente, os trabalhos acadêmicos parecem nos contar muito pouco. Quando lemos um artigo sobre a construção de um novo algoritmo, o vislumbre de uma conexão entre dois aspectos ou uma nova percepção sobre um problema, sabemos pouco sobre a trajetória que levou o pesquisador até ali. Constrói-se a impressão de que todo aquele trabalho já apareceu pronto, como que fruto da inspiração divina. O que está longe da verdade, na imensa maioria dos casos.

Penso que todo trabalho deveria ter um capítulo que descrevesse a trajetória de sua construção: os erros, os acertos, os problemas enfrentados, as escolhas, os dilemas. Não somente uma seção que apresentasse a metodologia utilizada, mas algo que deixasse transparecer todo o esforço envolvido na elaboração daquele estudo. E se você acha que a trajetória de uma pesquisa quantitativa é linear, sinto dizer que a realidade parece ser bem diferente.

É claro que algo assim tomaria espaço, por vezes tão escasso nos formatos comuns de artigos acadêmicos. Que o colocássemos, então, em nossas teses e dissertações, pelo menos. E que lutássemos para que houvesse uma categoria de publicação chamada "trajetória de pesquisa" ou algo assim.

Todos nós erramos na condução de nossos trabalhos. Todos nós elaboramos hipóteses que se provam falhas, aplicamos métodos que não trazem os resultados que esperamos, conduzimos experimentos que não foram bem elaborados. Em vez de manter silêncio e guardar segredos nos laboratórios e salas de pesquisa, porque não se expor? Porque não fornecer esse depoimento encorajador para os demais, dizendo que "sim, é difícil, sim, eu errei...mas consegui chegar até aqui"? Porque não dizer que o rei está nu?

É claro que é empolgante e inspirador ler um trabalho brilhante. Mas ainda mais inspirador seria conhecer todo o processo que deu origem ao trabalho, com erros, desvios e acertos. Conhecer a humanidade por trás daquele trabalho. Não só o caminho, a história bonita em que tudo funciona e A leva até B. E sim, aquela história completa, autobiográfica, incerta e tortuosa. Isso não diminui (ou não deveria diminuir) o mérito do trabalho.

No momento em que não deixamos registros de nossa jornada até chegar ao resultado final do trabalho, estamos dificultando o caminho para aqueles que vêm depois de nós. Estamos fazendo nosso trabalho parecer perfeito e inatingível. E então, vamos ensinar tal postura e exigir de outros a mesma falta de transparência que apresentamos. E vamos rechaçar quem apresentar tal sinceridade.

Lembro de um episódio de trabalho em que eu falei numa reunião que não estava conseguindo completar determinada tarefa. Fui olhada com desagrado e pena por pessoas de outros departamentos, que então desfilaram intermináveis conselhos do que eu deveria fazer. Nenhum deles me parecia aplicável...e saí da reunião me sentindo frustrada e incompetente. Qual não foi minha surpresa quando um colega me chamou de lado e me disse, como quem conta um grande segredo, que ninguém estava fazendo aquilo, mas que burlavam o sistema para fazer parecer que estavam. Eu, sem querer, havia quebrado o pacto de silêncio.

Sinto que mantemos esse pacto diariamente nas bancas, comissões julgadoras, orientações e aulas pela ciência afora. Mostramos o lado "limpo" da nossa pesquisa para o mundo. E acho que isso tem que mudar.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Exemplo de pesquisa qualitativa (entrevista e análise)

No post anterior eu dei um exemplo de como não fazer entrevista qualitativa.

E como seria uma entrevista qualitativa de verdade?

Bom...entrevistas qualitativas costumam ser longas. Quanto mais a pessoa fala, melhor. Por isso, devem ser evitadas perguntas que possam ser respondidas só com "sim" e "não".

Para exemplificar, criei um trecho fictício de entrevista, baseada no exemplo 1, do post anterior.


Problema de pesquisa: Como a TI contribui para os microempreendedores?
Entrevistada: Dona Maria

[...]
- "Dona Maria, como surgiu essa ideia de implantar esse sistema?"
- "Ah, minha filha, a ideia de botar esse sistema aqui foi do meu filho. Ele tá fazendo um curso de computador e chegou dizendo que se botasse ia melhorar. Aí eu botei. Quando chegou, foi ele mesmo que instalou e botou pra funcionar. Aí no começo eu tava meio teimosa, não queria usar...mas aí ele foi me ensinando e eu aprendi. Aí hoje todo pedido que a gente faz a gente bota aí no sistema"

- "Se ele não estivesse por aqui, a senhora teria colocado o sistema?"
- "Ah, não tinha não! Não tinha não porque eu não sabia mexer...fora que se fosse pra chamar outra pessoa, eu ia ter que pagar e aqui é desse jeito que você tá vendo: assando e comendo..."

- "Entendo...Hoje a senhora consegue imaginar isso aqui sem esse sistema?"
- "Consigo, minha filha. Mas com ele é melhor, né? Porque no fim do mês eu já tenho tudo certinho pro contador...porque antes era uma trabalheira...eu tinha que ficar inventando até, porque eu não achava as coisas..."

- "A senhora vê outras vantagens, além dessa?"
- "Ah, também é bom que eu sei o quanto deu pra apurar no mês"

- "E como isso lhe ajuda?"
- "Ah, minha filha, você sabe, né?...É que as conta é tudo misturada, daqui e de casa...aí, sabendo quanto deu aqui, sei quanto dá pra fazer de feira"
[...]



E aí?
Consegue ver como a TI ajuda o microempreendedor?

A gente poderia extrair 475293 coisas dessa entrevista:
- a necessidade de ter alguém externo que dê a ideia de adotar a TI, já que o microempreendedor nem sempre tem essa visão
- a questão dos custos da TI, que podem ser impeditivos para o microempreendedor
- a questão da universalização do ensino superior: e se o filho da D. Maria não tivesse estudando?
...

E por aí vai.
Por isso que a gente precisa de uma pergunta de pesquisa: pra guiar a análise. Senão a gente passa a vida toda "futucando" aí...Nada impediria que a gente explorasse outros aspectos, mas para começar, vamos ficar só na questão de pesquisa.

A d. Maria fala:

"no fim do mês eu já tenho tudo certinho pro contador...porque antes [do sistema] era uma trabalheira...eu tinha que ficar inventando até, porque eu não achava as coisas..."
Eu não sei pra vocês...pra mim, olhando por alto, parece que a TI ajuda no cumprimento das obrigações legais.

E não é só isso:

"as conta é tudo misturada, daqui e de casa...aí, sabendo quanto deu aqui, sei quanto dá pra fazer de feira"
Ou seja...ajuda na gestão financeira da empresa, o que também ajuda no orçamento familiar, já que nesse contexto, as coisas costumam estar misturadas.

Então, nessa análise eu já teria duas respostas para a pergunta de pesquisa:
  • Cumprimento de obrigações legais: A TI ajuda o MEI a cumprir as obrigações legais, e até reduz a incidência de erros e fraudes involuntárias na prestação de contas ("eu tinha que ficar inventando até")
  • Controle Financeiro: a TI ajuda a melhorar o controle financeiro da empresa e por conseguinte, o controle financeiro familiar.

Eu também poderia detalhar essa questão da TI e indicar o tipo de sistema ao qual ela se referiu. Aí no fim, eu poderia associar o tipo de tecnologia às respectivas contribuições.

Por que eu disse "teria duas respostas"? Porque nos desenhos de pesquisa qualitativos que envolvem várias pessoas (caso mais comum, como é o exemplo 1) os resultados de pesquisa normalmente são aquelas questões mencionadas por várias pessoas. Mesmo quando só há um sujeito investigado, é recomendado o uso de outras fontes para dar mais solidez aos resultados da pesquisa.
Assim, se os próximos entrevistados também falarem essas coisas, vai se consolidando um resultado de pesquisa.

E aí? Partiu pesquisa?

---

Em tempo: sou iniciante na pesquisa qualitativa, leitora ávida de Merriam e Patton. Se eu falei besteira ou se tem algum paradigma em que nada disso aí vale, me conta. =D

O que é entrevista qualitativa e o que não é

Fazer pesquisa qualitativa em alguns ambientes é um desafio. Embora sua importância já seja ponto pacífico nas ciências humanas, quem vive entre os dois mundos (como eu), às vezes passa apuro para explicar que o que está fazendo é pesquisa científica sim.
Mas eu entendo o preconceito que vejo por aí: tem muita pesquisa qualitativa com problemas.

Exemplo: a pessoa quer investigar como a TI contribui para o microempreendedor. Aí o que faz? Um monte de entrevistas perguntando coisas como: "na sua opinião (porque é quali, oras! Tudo é na visão da pessoa #ironia), qual é a contribuição da TI para o seu negócio?". Aí seleciona as respostas que mais apareceram, vai lá e escreve os resultados. E põe lá que "realizou um estudo qualitativo".

Desculpa. Isso é jornalismo. Não é pesquisa qualitativa. (na minha opinião...mua ha ha).

Até onde aprendi, para responder à pergunta "como a TI contribui para o empreendedor" de modo qualitativo eu poderia fazer alguma das opções a seguir:
  1. Entrevistar microempreendedores. Primeiro faria perguntas para identificar o que há de TI na organização. Depois perguntar de onde veio a ideia de adotar a tecnologia, como foi a implantação, como ele usa aquilo. Depois perguntar, p. ex, se a pessoa consegue imaginar a empresa sem aquilo.
  2. Primeiro observar uma microempresa funcionando e identificar que tarefas envolvem TI. Depois pedir que as pessoas me falassem daquelas tarefas, pra que eu entendesse a importância delas para o negócio. E aí fazer a conexão TI-Negócio.
  3. Acompanhar uma organização que está adotando um sistema até que ele entrasse em operação, para indicar como ela mudou.
  4. (insira seu desenho de pesquisa favorito aqui).
Em todo caso, no processo de análise dos dados, eu iria buscando as conexões entre a TI, as razões para adotá-la e como as coisas mudaram depois que ela chegou. E jamais perguntar o que é que a galera "acha" que é.

Nunca viu uma entrevista nem uma análise qualitativa de perto?

Se aperreia não: no próximo post eu mostro um exemplo, baseado na opção 1. Vamos fazer algo como análise de conteúdo. Mas tem váaaarios tipo de análise qualitativa. Por enquanto só captei a ideia dessa...rss....

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Está escrevendo a dissertação?

Normalmente eu escrevo posts pensando naqueles que estão interessados em entrar no mestrado ou que ingressaram há pouco tempo.

Neste eu quero falar com você, companheira ou companheiro de jornada, que está vivendo o processo de escrita da dissertação.
Eu também estou na reta final: nas próximas 2 semanas, no máximo, o trabalho tem que estar pronto para avaliação.

Mas você sabe, como hoje eu sei, que o processo de escrita é muito mais longo do que parece. Provavelmente você já lê sobre o tema há meses, já fez revisão de literatura, já viveu idas e vindas em relação aos objetivos da pesquisa, à metodologia, etc.

E aí, quando a gente se depara com as páginas em branco, parece impossível traduzir toda a vivência para a palavra escrita.

É quando a gente trava.

Uma dica preciosa já nos foi dada pela Dory, anos atrás:



Continue a nadar.
É só isso.
Empacou numa seção? Parte pra outra.
Tá difícil explicar um conceito? Vai lá formatar uma tabela.
Está inseguro na análise? Repassa as referências.
Você vai conseguir.
Eu vou conseguir.
É só continuar nadando.
Em vez de dizer "vou escrever x páginas hoje", diga "vou trabalhar x horas na dissertação". Parece uma bobagem, mas faz toda a diferença.

Ontem eu tive uma sensação muito doida. Vou tentar descrever:

"Imagina que você tá no fundo de um poço escuro. Você tenta escalar, tenta pular, até faz algum progresso, mas parece que vai demorar um século até você sair dali. Aí, de repente, alguma coisa te puxa até a borda do poço e você, por um instante, tem um vislumbre da superfície. Depois você cai de novo no poço, mas percebe que a distância entre a superfície e onde você está não é tão grande. Você está perto."

Foi isso que senti ontem, enquanto trabalhava na dissertação.
Desde então não tive mais ataques de ansiedade. Os parágrafos começam a surgir na minha cabeça enquanto lavo a louça, o que é um ótimo sinal. E nesse momento estou inexplicavelmente em paz.

Quer dizer, não sei se eu chego a ter ataques de ansiedade no sentido estrito do termo (uma desordem psicológica), mas é como eu sinto.
É uma sensação de angústia, impaciência, vontade de desistir, vontade de chorar, tudo junto e misturado. A respiração acelera. Quando fico assim, não consigo ler, não consigo escrever, nada mais faz sentido, o trabalho parece totalmente incoerente e inútil. Não desejo pra ninguém.
Para lidar com isso, muita conversa com gente querida, dias de folga, dança...
E o mantra: "feito é melhor do que perfeito".

Eles estão me ajudando a continuar a nadar.

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PS: Estou atrasada com os comentários e emails. Mas respondê-los está no topo da minha "lista de coisas pra fazer entre o depósito e a defesa da dissertação" ;-)